BATE-PAPO SOBRE REESTRUTURAÇÃO DE DÍVIDAS

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por Equipe Accountfy
em 26 de agosto de 2019

Alfredo Freitas, experiente CFO, co-fundador da Accountfy fala sobre reestruturação de dívidas                                          
Executivo com mais de 35 anos de atuação nos mercados de celulose e papel, etanol e infraestrutura logística, Alfredo Freitas é uma referência na área de finanças no Brasil. Contador de formação, com MBA em Gestão Financeira pela USP, possui uma ampla vivência nas áreas de Controladoria, Orçamento, Planejamento de Negócios, Reestruturação Empresarial e Negócios. Por 18 anos atuou como Diretor Financeiro da Suzano, empresa líder mundial no mercado de papel. Foi CFO na Suzano Petroquímica e na Brenco – Companhia Brasileira de Energia Renovável. De 2011 a 2017 atuou como Diretor Executivo de Planejamento e Finanças no Grupo Libra, um dos maiores operadores portuários e de logística de comércio exterior do Brasil. Sócio fundador da São Conrado Capital Partners e da Accountfy, estando desde 2018 à frente da área comercial e de serviços desta última. Em um bate papo com o executivo, falamos sobre temas como reestruturação de dívidas, governança em momentos de crise, perspectivas e desafios atuais para os CFOs brasileiros. Confira a seguir os principais momentos dessa conversa. 
Na sua opinião, quais vem sendo os maiores desafios enfrentados pelos CFOs recentemente? 
A.F.: Nos últimos anos notoriamente passamos por momentos de grande instabilidade política e econômica, e isso acabou trazendo um certo grau de nervosismo para as empresas em geral. Assim, a tomada de decisão por parte dos CFO´s passou a demandar uma quantidade maior e muito mais precisa de informações sobre seus respectivos negócios. A dinâmica do mercado vem exigindo velocidade por parte das empresas e forçando-as a buscar um certo grau de organização interna para ter maior assertividade ao projetarem cenários em que há tantas incertezas não só no Brasil, mas no mundo todo. Creio que esse processo de arrumação e organização ‘da porta pra dentro’ acabou fazendo com que as empresas forçosamente tenham entendido a importância de entender e acompanhar, com disciplina e consistência, os principais indicadores relacionados à sua saúde financeira e contábil. Eu realmente creio que houve um grande amadurecimento dos profissionais de controladoria e FP&A, e também do mercado financeiro. Foram muitas as empresas que quase sucumbiram à crise, mas que acabaram conseguindo eficientemente fazer essa lição de casa, reestruturando operações deficitárias e inclusive renegociando dívidas com seus credores. 
Nesse contexto de incertezas e nervosismo, na sua opinião, qual deve ser a postura de um CFO ao negociar com seus credores? 
A.F.: Eu realmente acredito que a transparência é a chave para qualquer relacionamento. Meu conselho é: ainda que a notícia seja ruim, seja sempre claro e diga a verdade! Encarar os desafios com sinceridade é fundamental, pois se existe algo que não pode faltar em um processo de renegociação de dívidas é a manutenção da confiança entre as partes. Ao prometer algo, tenha certeza de que poderá cumprir com o que prometeu. Por exemplo, nem sempre as companhias conseguem antecipar a possibilidade de um eventual default, seja por uma desorganização interna ou mesmo por variáveis externas não previstas. O ideal é tentar se antecipar, mas o que é inegociável é o dever de manter as outras partes sempre informadas do que acontecerá. Uma comunicação clara e objetiva entre companhia, acionistas e credores é a chave do sucesso de um processo que tende a ser longo e desgastante para todas as partes. Por isso defendo que, para que você tenha êxito neste processo, seja para recontratar, planejar, etc, o alinhamento expectativas e a uniformidade das informações são fundamentais. 
Como o CFO deve agir quando tem um acionista pouco compromissado com o dever de transparência, ou quando o empresário tem somente a visão da maximização dos resultados no curto prazo? 
A.F.: Para mim, a negociação com credores e com os acionistas tem que ser conduzida da mesma forma, com a mesma franqueza. Eu sustento sempre a posição de que todo CFO deve defender os interesses da companhia, e não de um ou outro acionista, ou de um ou outro grupo de credores. O CFO tem um papel fundamental no sentido de garantir a clareza entre esses interlocutores, mas sempre brigando e defendendo os interesses da empresa, sempre olhando para sua continuidade. Todo mundo tem que estar alinhado no mesmo objetivo, se há uma falta de confiança ou de alinhamento por qualquer uma das partes, você, como um executivo que defende os interesses da empresa, tem que lidar com essa situação e trazer tudo isso para um alinhamento único. 
Existem algumas negociações de dívidas em que os bancos acabam impondo um custo altíssimo na renegociação e isso pode colocar a empresa em mais dificuldades. Você já enfrentou esse tipo de situação? 
A.F.: Sim, eu já negociei uma situação semelhante. Assim como também já tive que fazer renegociação de dívidas de empresas que sequer tinham garantias a oferecer. Mas acredito que se você consegue apresentar projeções estruturadas e confiáveis, os bancos acabam praticando taxas adequadas e condizentes com a realidade da companhia e com os riscos de não pagamento que ela eventualmente apresenta. Agora, o que é parte dos processos de renegociação, tenho que reconhecer, é que a remuneração dos bancos em determinados cenários tem mesmo que ser maior que o usual, exatamente porque o risco de crédito dos bancos é maior. Mas a negociação tem que obedecer a razoabilidade, caso contrário ela poderá ser ainda mais perversa para a companhia, desequilibrando os fluxos de pagamento de maneira fatal, que é justamente o que se quer evitar com a renegociação. 
Na sua experiência, é mais fácil reestruturar uma dívida que esteja concentrada com um ou dois bancos, ou ter que renegociar uma dívida que esteja dispersa entre vários credores? 
A.F.: Acho que depende muito de cada situação, e que cada um dos cenários tem vantagens e desvantagens. Creio que o processo de renegociação com poucos credores tem a vantagem de ser muito mais rápido e mais assertivo, enquanto que dívidas dispersas requerem mais esforço negocial. É claro que a depender do tamanho da dívida, e se a empresa está com sua capacidade de pagamento reduzida, ela ficará sujeita a taxas muito mais altas e à exigências também mais complexas. Mas isso é da lógica natural do processo. Uma empresa que tenha dívidas fiscais, mas que possa refinanciar sua dívida por meio de parcelamento ordinário, por exemplo, tem diante de si um cenário de menor complexidade negocial, posto que suas condições são pré-determinadas e sujeitas a limitadores. Negociar com fornecedores, por exemplo, pode ser uma situação perversa na medida em que a empresa dependa – mais ou menos – daquele fornecimento para poder ter um produto para vender e gerar receita, o que complica muito a questão do fluxo de caixa e dos prazos de repagamento. Num cenário de pulverização de credores vai ser mais difícil garantir uma interlocução ágil e uniforme com todos eles. A minha experiência mostra que você deve pegar um ou dois que vão ancorar e vão liderar o processo pelo lado dos credores. Negociar com um credor é mais fácil porque você coloca todo mundo em uma sala e o alinhamento tem que sair dali. Quando os credores estão pulverizados, o desafio acaba sendo garantir a velocidade e a uniformidade entre eles. Ou sai tudo ou não sai nada em uma negociação coletiva, e a grande vantagem é essa, você vai encontrar um ponto ótimo de garantia e de condição de financiamento em que todo mundo vai fazer um esforço igual. Creio que a grande questão que vem desafiando os CFO´s, na verdade, é que no Brasil não temos tantas opções de refinanciamento pois, ao fim, são poucos os bancos que tem capacidade de dar créditos em valores mais expressivos. Temos praticamente quatro grandes bancos que controlam a oferta de crédito e tem capacidade para de aportar volume para grandes empresas.
 E em que momento você acha a recuperação extrajudicial deve ser avaliada? 
A.F.: O melhor caminho nunca me parece ser o da recuperação. Uma empresa que entra num processo de recuperação sofre uma deterioração no valor da sua marca, pois acaba dando uma sinalização importante para o mercado e para seus stakeholders que pode resultar em dificuldades para a área comercial.  Seus concorrentes vão mencionar que você está em recuperação judicial para o seu público-alvo, então esse deve ser analisado como um cenário extremo. Mas é uma prerrogativa legal que visa proteger o bem maior que é a continuidade das companhias, e que, portanto, deve ser analisada quando se percebem riscos de insolvência, ou quando é necessário mais tempo para pavimentar uma renegociação de dívidas. Eu nunca vivi uma recuperação, embora já tenha feito avaliações sobre sua conveniência em algumas oportunidades da minha carreira. Mas o caminho que escolhi foi o de buscar soluções junto aos meus credores e acionistas, evitando perda de valor para a empresa. 
Neste sentido, quais lições as empresas aprendem ao passarem por um processo de recuperação ou reestruturação de dívidas?
 A.F.: Em geral, a empresa sai muito mais fortalecida depois de um processo de reestruturação.  O difícil no momento de crise é ter que deixar de lado muitos projetos estruturados e estratégicos, mas que acabam ficando inviáveis de se executar. No entanto, só se constroem empresas duradouras sobrevivendo no curto prazo. Algumas vezes é necessário desconstruir o tijolinho daquele muro que você estava montando para poder retomar a construção mais adiante… 
Quais são seus conselhos para que um CFO seja protagonista no sucesso financeiro de uma empresa?
 A.F.: O papel do CFO em uma organização é sempre o de ter uma posição muito racional sobre a situação da companhia e tentar fazer forecasts mais realistas para que nortear o caminho que a administração vai seguir na condução dos seus negócios. Em um cenário de maior adversidade, em que é necessário tomar medidas duras, você precisa ser rápido e assertivo. É impossível pedir para uma empresa fazer um grande ajuste na sua estrutura sem ter que abrir mão de algumas coisas, por isso é necessário negociar, priorizar algumas coisas em detrimento de outras. Na tomada de decisões cotidianas, o equilibro vai ser a chave do sucesso. Adotar medidas muito agressivas é ruim, e ser muito conservador é tão ruim quanto. Tenho muita cautela em tomar risco cambial, por exemplo, pois creio que esse é um risco completamente incontrolável. A gente já teve, na história do país, exemplos clássicos de grandes organizações que tiveram que ser transferidas de controle por conta de operações cambiais que se mostraram totalmente equivocadas segundo princípios básicos de contabilidade. Acho que se você não tiver um lastro muito robusto para tomar riscos cambiais, melhor não flertar com ele. 
Como acredita que as novas tecnologias podem ajudar as empresas a monitorarem seus indicadores de performance e manterem controle sobre seu nível de endividamento 
A.F.: As áreas de suporte e administração das grandes corporações tem a tendência de querer construir as soluções dos seus problemas e seus desafios internamente. O resultado prático, no geral, é a solução não desenvolver, fracassar, ser esquecida e não implementada. O que as empresas tem demorado a perceber é que tem muita solução de tecnologia sendo desenvolvida para a realidade atual dos negócios. As empresas precisam acordar e abrir um espaço na agenda para olhar para as inovações e soluções que o mercado vem desenvolvendo de uma maneira muito prática, objetiva e eficiente. A inovação é um caminho sem volta, e as soluções de automação que estão surgindo e se consolidando estão eliminando trabalhos repetitivos e operacionais, abrindo espaço para que as empresas possam pensar naquilo que é seu core, naquilo que é realmente importante e estratégico. De maneira geral, toda tarefa que é repetitiva e mecânica deve ser automatizada para agregar valor não somente para a companhia como também para seus colaboradores. Nas minhas andanças, sempre me surpreendo com a quantidade de informações que as empresas controlam por meio de planilhas, de forma ainda tão precária! Não estou falando de pequenas empresas, mas também de grandes corporações, que se submetem a riscos de compliance severos! Quando você acende uma luz para as empresas e mostra como elas podem enxergar o desenvolvimento do business a partir de uma análise estruturada dos seus próprios balancetes e resultados financeiros, elas acabam percebendo que vão estar melhores equipadas para tomar decisões e redirecionarem o rumo dos negócios. Por isso acredito tanto na tecnologia como mola propulsora de uma grande mudança de mentalidade por parte dos gestores e das empresas. 
Como você está enxergando as possibilidades para este novo momento da economia? 
A.F.: A perspectiva de mudanças mais profundas e estruturais tem me deixado mais animado. Acho que a gente tem muita lição de casa, mas acredito que as coisas tendem a entrar nos eixos. Os ajustes e reformas que precisam ser feitos no país são fundamentais para dar o direcionamento de como é que as coisas vão efetivamente caminhar a partir de agora. O tema endividamento é algo que está nas conversas de todos, diariamente. Estados quebrados tendo que repensar como farão ajustes efetivos. Não são conversas simples, e o desafio está longe de ser pequeno. Sigo animado e otimista, mas com uma razoável cautela. O fato é que, qualquer que fosse o novo governo, enfrentaria muitas dificuldades… Será um trabalho duro de “arrumação de casa” e de equilibrar as contas, e não nos resta opção que não apoiar e torcer pra que dê certo.

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